Olheiro

O lado financeiro da guerra entre Palmeiras e FPF

A final do Paulistão 2018 desencadeou uma guerra de bastidores entre Palmeiras e a Federação Paulista de Futebol (FPF) que ainda está longe de acabar.

Pelo lado palmeirense, houve uma nota oficial anunciando rompimento com a federação, um vídeo que mostra a interferência externa no lance do pênalti sobre Dudu e solicitação da abertura de inquérito de investigação. Enquanto isso, a FPF abriu mão do camarote que utilizava no Allianz Parque e tenta salvar o que ainda resta de sua reputação.

Os torcedores palmeirenses, que sempre cobraram uma resposta mais agressiva do clube nos casos de erros de arbitragem, estão apoiando todas as decisões da diretoria, comemorando até o fato de nenhum jogador ter participado do quadro Segunda Campeã do SporTV depois do jogo contra o Botafogo. É muito comum ver nas redes sociais, vários torcedores defendendo que o clube não dispute o Campeonato Paulista do próximo ano ou que escale apenas os jogadores de base.

Essa não é uma decisão fácil, pois mesmo com os estaduais em crise, o Campeonato Paulista ainda traz receitas relevantes aos clubes. Vamos ver quanto o Palmeiras arrecadou com o Campeonato de 2018.

O lado do Palmeiras

Cotas de Televisão

Os direitos de transmissão do Campeonato Paulista são os mais valorizados pela Globo entre os estaduais. A valorização do campeonato trouxe em 2018 20 milhões de reais a cada um dos quatro clubes grandes do estado.

Nunca se teve acesso ao contrato entre a emissora e a FPF, mas já foi ventilado na mídia por diversas vezes que o clube deve jogar o campeonato com seus principais jogadores para receber a sua cota.

Além do valor da cota, o Palmeiras teve seis partidas transmitidas pela TV Aberta. Ao total, foram 187 pontos de audiência pelo IBOPE, correspondendo a 13,4 milhões de televisores ligados em seus jogos. Nenhum patrocinador gostaria de deixar esses números de lado.

Pontos de audiência nos jogos transmitidos em TV Aberta (fonte: Kantar IBOPE)

Bilheteria

O Palmeiras fez nove jogos como mandante no Paulistão 2018. Oito desses jogos foram no Allianz Parque e um foi no Pacaembu (semifinal contra o Santos). O Verdão foi o líder em público e renda no campeonato, com uma média de 31.399 pagantes por jogo e 18 milhões de renda bruta total.

Renda Líquida dos jogos em casa (fonte: boletim financeiro dos jogos)

Esses nove jogos como mandante engordaram o já cheio cofre palestrino em 11,5 milhões de reais (valor total da renda líquida). Premiação

A premiação do Campeonato Paulista é a maior entre os campeonatos estaduais do país. 5 milhões de reais para o campeão e 1,6 milhões para o vice, valor ganho pelo Palmeiras.

Total: 33,1 milhões de reais

O valor arrecadado diretamente com o Campeonato Paulista em 2018 não é desprezível: corresponde a um pouco mais de 5% do faturamento anual palmeirense e pagaria um mês das despesas do departamento de futebol profissional do clube.

Parte desse valor perdido ao não disputar o estadual com o time principal poderia ser recuperado em um tour de pré-temporada, com as bilheterias do time B que disputasse o Paulistão, entre outras ações, mas dificilmente o Palmeiras conseguiria chegar aos 33 milhões. Vale a pena não disputar o Paulistão 2019?

O lado da FPF

A primeira divisão do campeonato estadual mais rico do país é a principal competição organizada pela FPF e uma de suas principais fontes de renda. Acostumada a ter os clubes sempre em concordância com todas as suas ações, a rebeldia do Palmeiras pode trazer consequências que destruam a estrutura atual da Federação, a começar pelas perdas financeiras.

Taxa de Bilheteria

Nos jogos dos quatro grandes do estado, a FPF morde 7% da renda bruta de bilheteria (5% diretamente para a Federação e 2% para o Fundo de Valorização e Desenvolvimento). Nos nove jogos do Palmeiras como mandante, o clube repassou um total de 1,25 milhões de reais à FPF.

É importante colocar outro número na conta: a arrecadação dos times do interior que receberam o Palmeiras na primeira fase. Foram cinco jogos do alviverde fora de casa: Botafogo, Mirassol, Bragantino, Ponte Preta e Ituano. Todos esses cinco clubes tiveram a sua renda mais alta no campeonato no jogo contra o Verdão. O número fica ainda mais significativo quando comparamos a renda do jogo contra o Palmeiras com a renda média dos jogos dessas cinco equipes contra os outros times do interior.

Como os times do interior repassam apenas 6% da renda bruta para a FPF, foram 150 mil reais extras no cofre da FPF em 2018 que não existiriam se o Palmeiras não estivesse na competição. E aqui não foram calculadas as quartas, semi e final que o Palmeiras jogou como visitante, pois foi considerado que essas partidas teriam um público e renda alta de qualquer forma por serem jogos da fase final do campeonato.

Participação dos clubes na arrecadação da FPF com taxa de bilheteria (fonte: boletim financeiro dos jogos)

No texto anterior, foi visto que o Campeonato Paulista é responsável por 5% do faturamento anual do Palmeiras. Pelo lado da Federação, 38% da sua arrecadação com o campeonato vem diretamente do time alviverde, além de 4% adicionais que o clube gera como visitante: 1,4 milhões de um total de 3,3 milhões.

Cotas de TV e Patrocínio

Sem o Palmeiras, o Campeonato Paulista seria menos atrativo para a televisão e para os patrocinadores. Além da queda na audiência em jogos na TV Aberta, poucos palmeirenses iriam manter o pacote pay-per-view nos primeiros meses do ano, sendo que nenhum jogo do Palmeiras seria transmitido. Isso ocasionaria em uma queda no valor dos direitos de transmissão afetando os outros clubes participantes. Ao receber menos dinheiro, esses outros clubes não estariam mais tão satisfeitos com a FPF.

Além disso, seria mais difícil vender o campeonato aos patrocinadores, pois estes buscam atrelar a sua marca ao esporte positivamente. Um campeonato sem um dos maiores times do estado, cuja desistência foi motivada pela falta de confiança na lisura da federação que o organiza, teria sua reputação fortemente abalada, reduzindo o valor arrecadado com a venda de patrocínio.

Reputação e Exemplo

Essa é a perda mais difícil de mensurar quantitativamente. O rompimento do Palmeiras com a FPF e não disputar Paulistão do ano que vem seriam notícias que manchariam a imagem da Federação, afinal, a mensagem que estas atitudes passariam seria clara: o Palmeiras não confia na Federação e entende que não vale a pena disputar um campeonato enviesado.

Os depoimentos das testemunhas no inquérito que investiga a possível interferência externa no segundo jogo da final do Paulistão já mancharam a imagem da FPF, com o depoimento do quarto árbitro contradizendo a versão oficial da Federação e dando indícios de que algo pode estar errado.

Além disso, o Palmeiras seria o exemplo inicial para outros times seguirem o mesmo caminho. Para muitos times do interior, o Campeonato Paulista só é vantajoso em jogos contra times grandes. Um tour do Palmeiras pelo estado poderia atrair esses times do interior para jogos amistosos, mostrando que há vida além do Campeonato Paulista e que essa nova vida pode trazer mais vantagens a eles.

Inicialmente, o rompimento traz impactos negativos tanto para o Palmeiras quanto para a FPF. No entanto, o clube tem uma torcida sedenta por justiça e que pode ser fundamental nessa queda de braço. Por outro lado, a Federação terá que depositar a sua confiança na relação com os outros clubes e se esforçar para que nenhum siga o caminho palmeirense.

Outro caminho para a Federação seria atender aos requisitos palmeirenses e fazer do Campeonato Paulista de 2019 um exemplo de organização e ética, mas para isso, o primeiro passo é assumir o erro e buscar a verdade sobre a interferência externa que está sendo investigada.

Esse projeto foi orgulhosamente criado por Augusto Oazi